28/07/2012

Reencontrados após o desaparecimento por sequestro ou vontade própria, filhos devolvem às respectivas famílias a alegria de viver

 


O desespero tomou conta de Geissa Maria da Silva no dia 10 de junho. Mãe de uma menina de 4 anos e de um menino de 8, ela estava com os dois numa igreja evangélica da capital paulista quando Brenda Gabriela, a menor, desapareceu. Ninguém viu ou ouviu nada que pudesse dar uma pista do paradeiro da criança. Duas semanas depois, a garota foi reconhecida por um vizinho em uma lanchonete, que avisou a polícia. O sequestrador conseguiu fugir.

Na volta para casa, Brenda teria dito à mãe que o homem que a sequestrou colocou a mão em sua boca para evitar que ela gritasse por socorro. Contou também que vivia escondida numa carroça e que passou fome. No dia 5 deste mês o suspeito de raptar a menina, o carroceiro Jorge Antunes Cardoso, foi preso em Maringá (PR). A polícia chegou até ele por meio do rastro deixado por operações bancárias que vinha fazendo.

No País, 40 mil crianças e adolescentes desaparecem em todo o Brasil a cada ano e apenas 20% dos casos são solucionados, de acordo com dado divulgado em junho durante a 2ª edição do "Seminário sobre Enfrentamento às Situações de Desaparecimentos de Crianças e Adolescentes", em São Bernardo do Campo (SP). Projetos como o da Fundação Criança, em São Bernardo, e o SOS Crianças Desaparecidas–Fia (Fundação Para Infância e Adolescência), no Rio de Janeiro (RJ), ambos integrados à Rede Nacional de Identificação e Localização de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (Redesap), contribuem para a resolução de outros casos.
 



 


Mãe de Vinicius da Paz Almeida, Janaína Arruda da Paz sabe bem o que a mãe de Brenda sentiu ao se dar conta do desaparecimento da filha. Em outubro de 2010, o pai do menino foi buscá-lo para passear no fim de semana e prometeu voltar com ele no dia seguinte. A promessa não foi cumprida. Um ano e 3 meses depois, Vinicius foi localizado e voltou para casa, na cidade de Mauá, região metropolitana de São Paulo.

Filho de pais cujo casamento não durou muitos meses, Vinicius tinha 5 anos quando foi levado. Em janeiro deste ano, um morador da cidade de Viana (ES), reconheceu o pai do garoto em uma foto divulgada em um programa de tevê e a família conseguiu chegar ao local onde estavam pai e filho.

Situações distintas podem motivar o desaparecimento. Entre as denominações estabelecidas pelo Ministério da Justiça, o caso de Vinicius foi considerado "conflito de guarda", que ocorre quando a criança é levada para local desconhecido sem o consentimento da pessoa que detém a sua responsabilidade. Desde o ano 2000, 81 casos foram registrados em todo o Brasil (confira outros dados aqui).

Paulo Lucas Costa de Souza, de 12 anos, foi localizado 100 dias após ter ficado longe de casa. Ele desapareceu em janeiro deste ano, em São Bernardo do Campo (SP). "Eu estava no quarto, vendo tevê, quando fui até a cozinha. Percebi que ele tinha saído. Fiquei até meia-noite esperando ele voltar", conta a mãe Altamira Costa de Paula, de 57 anos.
 



 


Passados 3 meses, a escola onde ele estudava procurou Altamira. Havia sido contatada por profissionais de uma fundação social com informações sobre o paradeiro de Paulo Lucas. "Fomos buscá-lo e ele chorou muito. Prometeu que nunca mais ia fazer aquilo (fugir de casa)", disse Altamira, revelando ter discutido com o filho no dia em que ele foi embora.

Sair de casa sem dar satisfações, por vontade própria ou por influência de agentes externos, ainda é a maior entre as causas de desaparecimento de crianças e adolescentes no Brasil. De acordo com Glícia Salmeron, presidente da Comissão da Criança, do Adolescente e do Idoso, do Conselho Federal da OAB, casos de "fuga" têm relação com questões de violência doméstica, negligência ou conflitos familiares.


Ajuda tecnológica
 



 




No Estado de São Paulo, onde cerca de 9 mil crianças e adolescentes desaparecem todos os anos, um programa de computador é utilizado para atualizar a foto da pessoa desaparecida. A tecnologia, inédita no País, permite a projeção de envelhecimento em terceira dimensão a partir do banco de imagens do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e de fotos dos pais e irmãos do desaparecido.

A primeira progressão foi feita com a foto da Fabiana Renata Gonçalves, que desapareceu aos 13 anos, em 1992. A mãe, Vera Ranu, se emocionou. "Sem a progressão, eu não conseguiria imaginar como ela poderia estar agora." Fabiana saiu para ir à escola e não voltou. Vera preside a ONG Mães em Luta, fundada em 2005 para apoiar famílias de pessoas desaparecidas. Para ela, faltam ações efetivas do poder público para que o número de pessoas localizadas cresça. "O que se vê são ações isoladas de ONGs, organizações e delegacias."

De acordo com o delegado titular da 4ª Delegacia de Pessoas Desaparecidas do DHPP, Sérgio Passos, em 2011 foram registrados mais de 22 mil boletins de ocorrências de pessoas desparecidas de todas as idades só no Estado de São Paulo.

Jornal ajuda nas buscas

Uma parceria entre a Folha Universal e a Fundação para Infância e Adolescência (FIA) contribui para a solução de muitos casos de desaparecidos. Com distribuição nacional e tiragem de mais de 1,8 milhões de exemplares, o jornal divulga a cada semana fotos e informações de crianças e adolescentes que sumiram de suas casas por conta própria ou de maneira forçada. "Com a ajuda da Folha Universal conseguimos localizar várias crianças. O periódico tem uma comunicação intensa que consegue chegar ao País todo. Lembro-me de um caso de uma que sumiu no Rio de Janeiro e que, por causa do jornal, foi localizada no Piauí", afirma Luiz Henrique Oliveira da Silva, coordenador do programa "SOS Crianças Desaparecidas".


FONTE
 

http://www.folhauniversal.com.br/capa/noticias/o-recomeco-13442.html 
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